Para alguns jovens enfermeiros de hoje deve ser difícil conceber a realidade vivida antes de Abril de 74, onde primava um clima de guerra, de opressão severa de toda e qualquer manifestação, mesmo que cultural e inofensiva para o regime. Recapitulo os testemunhos dos meus familiares e os inúmeros documentos que constatam essa realidade.
Para resumir, basta dizer que os direitos e liberdades de cidadania estavam inteiramente vedados e as prisões estavam cheias de pessoas que pensavam diferente ou que eram diferentes, denunciadas pelos seus amigos, familiares ou vizinhos. A censura, a PIDE/DGS, reprimiam qualquer movimento oposicionista. Durante décadas, Portugal viveu um regime ditatorial que impeliu o país para um atraso económico e cultural de que foi difícil recuperar.
Durante o Estado Novo, procedeu-se à reforma do ensino e da prática de enfermagem e impõs-se a proibição do casamento às enfermeiras, uma medida inspirada no modelo fascista italiano e que só foi revogada mais de 20 anos depois (em 1963) com a permissão do casamento para as enfermeiras hospitalares. O estado da saúde era claramente selectivo com uma classificação da população em 3 grupos: os pensionistas (os que podiam pagar as despesas com a saúde), os pobres ou porcionistas (os que podiam pagar parte das despesas) e os indigentes (os que nada podiam pagar).
Após o 25 de Abril de 1974, as transformações no papel social, profissional e familiar da mulher foram marcantes. Vencida a primeira batalha na luta pela igualdade, a mulher conquistou o direito ao voto, o direito ao trabalho no exterior. As mulheres reinventaram o seu papel alcançando o acesso a todas as profissões, o direito a possuirem passaporte ou contas bancárias, o direito a sairem do país sem autorização escrita dos maridos e foram reconhecidas como cidadãs de plenos direitos assumindo papéis políticos. Foram abolidas as certidões de bom comportamento moral e cívico e as informações da polícia necessárias a quem desejava obter certos empregos. Deixaram de ser necessárias as licenças de isqueiro. A coca-cola, as calças de ganga entraram definitivamente no nosso mercado. A censura acabou e o direito à informação é irrevogável. As manifestações culturais eclodem sem limites à criatividade.
Texto recuperado daqui.
